Introdução
Quando buscamos compreender o que é haicai, retornamos inevitavelmente à tradição japonesa consolidada por mestres como Matsuo Basho. No Brasil, porém, essa tradição, além de atravessar o oceano, precisou adaptar-se a outra paisagem, outra cultura e outras vivências. Foi necessário, assim, encontrar quem preservasse sua tradição com rigor. Um dos nomes centrais nesse processo foi Masuda Goga (1911-2008).
Nascido Hidekazu Masuda, em 1911, no Japão, adotou “Goga” como nome literário (“haimei”) — prática comum na tradição literária japonesa. Ao emigrar para o Brasil, trouxe consigo não apenas versos, mas uma compreensão profunda do haicai como disciplina de observação da natureza e percepção de si mesmo como parte de uma nova cultura, muito diferente daquela deixada no oriente.
Goga foi um dos principais representantes do haicai tradicional e figura central na preservação da linhagem japonesa clássica dessa tradição poética em território brasileiro. A importância dele não reside apenas nos haicais que escreveu, mas na tradição que ajudou a sustentar. Em sua atuação discreta e constante, o haicai encontrou no Brasil não apenas abrigo, mas continuidade. É por essa razão que sua trajetória inaugura esta seção de Inspirações & Referências.
Mais do que poeta, Goga foi pintor, estudioso, jornalista, escritor, organizador e articulador cultural. Seu trabalho foi decisivo para que o haicai fosse compreendido não apenas como forma literária breve, mas como postura diante do mundo, e encontrasse no Brasil um campo fértil de desenvolvimento.
Entre o Japão e o Brasil: tradição em trânsito
O haicai chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses no início do século XX, trazendo consigo a tradição literária japonesa do haiku — denominação original da forma que, ao ser incorporada à língua portuguesa, passou a ser grafada como haicai. Dentro das comunidades nipônicas, manteve-se como exercício de observação, disciplina e convivência literária. Mestre Goga, como é chamado por aqueles que com ele conviveram, teve papel central na preservação desse vínculo com a matriz japonesa. Ao mesmo tempo, ajudou a consolidar grupos e publicações que garantiram continuidade à sua prática em terras brasileiras.
Nesse contexto, analisar sua atuação também nos ajuda a compreender o desenvolvimento do haicai no Brasil.
Tradição não como rigidez, mas como método
O haicai que Goga praticava e defendia não se limitava à métrica 5–7–5. Como discutimos ao analisar a estrutura do haicai, a tradição clássica envolve um equilíbrio delicado entre descrever e sugerir. Para ele, eram essenciais,
- a presença do kigo, que ancora o poema no ciclo das estações, e a observação direta da natureza;
- o uso do corte (kireji), que cria tensão entre planos; e
- a economia verbal.
Essa postura preservava o núcleo da tradição associada a Bashō: o haicai não comenta sobre a natureza — o poema surge a partir dela.
A importância de Masuda Goga não se restringe à escrita de seus próprios haicais. Sua atuação como formador e articulador foi decisiva para a consolidação do haicai no Brasil. Ao participar da fundação do Grêmio Haicai Ipê, em 1987 — dedicado ao estudo e à prática do haicai tradicional —, e do Grêmio Haicai Caleidoscópio, em 1993 — voltado à composição de formas encadeadas como o renku, poesia irmã do haicai —, Goga contribuiu para a criação de espaços permanentes de aprendizado e reflexão poética. Nesses grupos, o haicai não era apenas exercício individual, mas disciplina compartilhada — tradição transmitida com rigor, garantindo sua continuidade.
Entre duas vertentes do haicai no Brasil
Ao longo do século XX, o haicai brasileiro desenvolveu-se em direções distintas. De um lado, escritores brasileiros adaptaram a forma à tradição literária ocidental, muitas vezes flexibilizando o vínculo sazonal e sacrificando a estrutura formal. De outro, comunidades de imigrantes e descendentes mantiveram laços mais estreitos com a tradição japonesa. Masuda Goga insere-se claramente nesta segunda vertente.
Sua atuação foi decisiva para que o haicai praticado no Brasil não perdesse o eixo da observação da natureza nem a disciplina formal que sustenta o poema.
O rigor da forma como exercício de escuta e observação
A fidelidade à tradição não significava mecanização. O rigor formal, para Goga, era exercício de escuta e observação.
Ao refletirmos sobre como nasce um haicai, vimos que o poema não surge pronto por inspiração súbita: ele passa por tentativas, ajustes e atenção à escansão poética. Esse cuidado com a forma não é ornamento técnico — é modo de purificar o olhar.
A métrica, o corte e a pausa não existem para aprisionar o poema, mas para impedir que ele se torne explicativo ou discursivo demais.
Masuda Goga em ato poético
Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
(H. Masuda Goga1)
Uma leitura do haicai de Goga
Neste haicai, Goga constrói uma paisagem que não apenas se vê — escuta-se.
O primeiro verso fixa um ponto: um bem-te-vi na árvore. A cena é simples, cotidiana, brasileira. Nada de exótico, nada de grandioso. O poema começa no mínimo. O pássaro não é apenas elemento da cena — ele funciona como kigo, palavra de estação. Se você quiser compreender melhor esse conceito e sua importância na tradição do haicai, explicamos em detalhes neste artigo sobre o que é kigo no haicai.
O bem-te-vi evoca a primavera. A estação não é nomeada; ela se insinua pela própria vida que irrompe no canto insistente. Assim, o poema situa-se no ciclo natural sem precisar anunciar a estação. A primavera está implícita na energia do pássaro.
No segundo verso, a repetição — canta e canta sem descanso — não é mero recurso enfático. A repetição prolonga a duração do instante. O ritmo reproduz a persistência sonora. Não se trata de descrever o canto, mas de fazê-lo ecoar no próprio corpo do poema. O ritmo se prolonga, insiste, ocupa o espaço. O leitor já não é mero observador: ele participa da duração do canto.
Então, no terceiro verso, o espaço se abre: outro canto ao longe. Aqui se manifesta o kireji — o corte estrutural do haicai. Não há partícula explícita, mas o efeito está presente: o poema separa e, ao mesmo tempo, relaciona dois planos sonoros. De um lado, o canto próximo. De outro, o canto distante.
O corte não rompe a cena; ele a aprofunda. Entre o pássaro visível e o canto distante instala-se um espaço de silêncio. Esse intervalo é constitutivo do poema. Ele cria distância e ampliação da paisagem.
O que começa como ponto fixo — um pássaro numa árvore — transforma-se em campo sonoro expandido. O mundo não se encerra no primeiro canto. Há sempre algo além do que se vê (ou se ouve).
O poema se encerra em três versos, mas a primavera permanece em ressonância. Essa contenção dialoga diretamente com o que estudamos sobre a estrutura do haicai, em que forma e silêncio se complementam.
Nada é explicado. Não sabemos se há diálogo entre aves, se há solidão, se há continuidade. O haicai não interpreta o fenômeno. Apenas o apresenta. E é nessa ausência de interferência do poeta que a cena ganha profundidade.
A repetição inicial concentra; o verso final expande. Entre um canto e outro, instala-se o silêncio como espaço de ressonância.
Aqui, Masuda Goga permanece fiel à tradição ao não converter o instante em metáfora. O bem-te-vi não simboliza nada. Ele canta. E, ao cantar, revela a estação, o espaço e a continuidade do tempo.
O haicai como reconhecimento da transitoriedade
No prefácio da antologia As quatro estações, Masuda Goga cita o Dr. Tomotsugu Muramatsu, reitor da Universidade Toyo, em Tóquio, para afirmar que “poetar por intermédio do kigo” significa reconhecer a transitoriedade e a posição do homem como parte mínima do cosmos. Ao recuperar essa formulação, Goga reafirma que o haicai não é apenas exercício formal, mas atitude diante da natureza.
Ao destacar o kigo como eixo estruturante do poema, entende-se que, para Goga, a estação não funciona como simples marca sazonal. Ela manifesta o ciclo da vida, o nascer e o morrer, a transformação contínua. Em um tempo de crescente distanciamento do ambiente natural, o haicai torna-se gesto de reconexão — canto breve que devolve o homem à sua condição de parte do mundo, e não seu centro.
O legado de Masuda Goga
Goga não foi apenas poeta. Foi também incentivador e formador. Sua atuação ajudou a consolidar no Brasil uma vertente fiel à tradição japonesa, garantindo continuidade e critério. Ao estudá-lo, percebemos que o haicai não é apenas um poema curto, é atitude.
Se, em nosso texto inicial, perguntamos o que é haicai, e depois exploramos como sua estrutura sustenta o instante observado, a trajetória de Goga nos mostra algo ainda mais profundo: o haicai é uma tradição viva, sustentada por aqueles que a praticam com rigor, entusiasmo e observação.
Em um momento em que o haicai poderia ter se diluído entre adaptações livres ou permanecido restrito aos círculos da imigração japonesa, Masuda Goga atuou como eixo de continuidade. Sua presença ajudou a assegurar que a tradição não se perdesse nem se tornasse mera formalidade. Ao mesmo tempo, abriu espaço para que o haicai encontrasse ressonância em solo brasileiro sem romper com sua linhagem.
O reconhecimento de sua atuação ultrapassou o contexto brasileiro. Em 2004, Masuda Goga foi agraciado com o Masaoka Shiki International Haiku Grand Prize, distinção concedida a nomes cuja contribuição ao haicai alcançou relevância internacional. Isso insere sua trajetória não apenas na história do haicai no Brasil, mas também no diálogo mais amplo com a tradição japonesa contemporânea.
A trajetória de Masuda Goga demonstra que o haicai tradicional pode permanecer vivo no Brasil, entre fidelidade à origem japonesa e diálogo com a literatura brasileira.
E é nessa linhagem — de observação, contenção, escuta e diálogo aberto — que o BrasilHaicai se propõe a caminhar.
Referências e leituras externas
- GOGA, H. Masuda. “Um bem-te-vi na árvore…”. In: SAITO, Roberto; HANDA, Francisco (Org.). As quatro estações: antologia do Grêmio Haicai Ipê. São Paulo: Massao Ohno Editor; Aliança Cultural Brasil-Japão, 1991. p. 17.
- FRANCHETTI, Paulo. O haicai no Brasil. ALEA: Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 256-269, jul./dez. 2008. DOI:10.1590/S1517-106X2008000200007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/alea/a/mxQMR6Cq3XxrWTZjF6czPYL/?lang=pt
- H. Masuda Goga (1911–2008)”. Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hidekazu_Masuda_Goga
- KAKINET. Caqui – H. Masuda Goga, mestre de haicai. Disponível em: https://www.kakinet.com/caqui/goga.shtml?
- Masaoka Shiki International Haiku Awards. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Masaoka_Shiki_International_Haiku_Awards
- Encyclopaedia Britannica – Haiku: https://www.britannica.com/art/haiku
